quinta-feira, 23 de junho de 2011

Guerrillero Heroico

por Albero Korda, Havana (1960)



"Uma grande exposição traz a Lisboa imagens de uma revolução e de um povo - tudo o que Alberto Korda viveu na sombra "daquela" fotografia de Che Guevara.
E, de repente, há esta imagem, com uma reserva distanciada da estridência de outras fotografias suas, planos de banhos de multidão, manifestações, fardas e grandiloquências. Che Guevara está sentado numa sala formal - o seu gabinete de presidente do Banco Nacional de Cuba - vestido com o cáqui da tropa, a boina a direito, as botas de atacadores apertados. Levanta uma mão como se puxasse o ar para si. No sofá em frente, escutam Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, cercados por cadeiras vazias - como se os restantes personagens da cena se tivessem levantado de propósito para dar espaço e significado ao encontro de três "gigantes".
Mais à frente, outras duas imagens que fogem ao estereótipo triunfal ou à criação de iconografia: numa, o jovem Fidel Castro folheia um álbum, de joelhos juntos e postura tímida, rodeado por quatro raparigas - as rainhas da rádio de Nova Iorque, que o líder cubano conhece na sua primeira viagem aos Estados Unidos da América, em 1959. Na outra fotografia, Fidel, de mãos atrás das costas, segura no chapéu e olha para cima, pequeno, face ao gigantismo do Memorial a Abraham Lincoln. E, depois, há ainda imagens de guerrilheiras a arranjar o cabelo, crianças sorridentes, jogos de xadrez nas pausas revolucionárias, Fidel e Che a jogarem golfe, desfiles na Plaza de la Revolución, trabalhadores na Sierra Maestra, fotografias de estúdio de uma bela rapariga a destilar o glamour estilizado da época - Norka, a modelo de eleição. As coisas que Alberto 'Korda' Gutiérrez (1928- 2001), fotojornalista e não só, viu. As coisas que o deixaram ver, antes de, em 1968, Fidel Castro ter anunciado a "Ofensiva Revolucionária" e decretado o confiscamento de todos os negócios privados - incluindo o Studio Korda, tomado de assalto por agentes do Ministério do Interior que fazem desaparecer os arquivos, apenas sendo conservados os negativos relacionados com a Revolução e os seus líderes.

O mar como fuga

Quarenta anos depois, a redescoberta. Ao todo, são 200 as imagens patentes em Korda - Conhecido Desconhecido que, de 2 de Dezembro até 31 de Janeiro de 2010, ocupará a Galeria Torreão Nascente, na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Organizada pela comissária Cristina Vives, com a ajuda do assistente de Alberto Korda (José A. Figueroa) e da sua filha (Diana Diaz), a exposição lança um novo olhar sobre a obra do fotógrafo, filho de um empregado ferroviário e de uma dona de casa, cujas rugas da maturidade lembravam um Hemingway. Cristina Vives conseguiu ter acesso, em 2008, aos 50 mil negativos guardados no Arquivo Histórico do Conselho de Estado de Cuba. Pôde ainda consultar os arquivos pessoais de Alberto Korda e o epistolário familiar, além de realizar entrevistas e pesquisar o homem por detrás das lentes. E diz que, neste processo de redescoberta, pôde dar resposta a questões que contextualizam a sua imensa produção fotográfica.
Por exemplo, saber como era o seu estúdio de Havana, onde ele realizou, entre 1954 e 1968, fotografias de moda e publicidade. Ou fazer o retrato do líder da Revolução que Korda captou na intimidade e cujas imagens nunca imprimiu nem expôs. Responder ainda a coisas como: "Onde estava o 'povo' que apoiou a Revolução e que muito poucas vezes incluiu na sua selecção de imagens para livros ou exposições? Houve outras modelos, para além de Norka? Onde as encontrava, quando a moda e a publicidade conheceram o fim na Cuba socialista, em meados dos anos sessenta? Foi o mar um tema recorrente na sua obra, ou este representava o refúgio encontrado, após o confisco do seu estúdio, em 1968 e a cessação das suas funções como fotógrafo acompanhante do líder da Revolução?"

Lições da História

Korda - nome que Alberto Díaz Gutiérrez assumiu em homenagem aos cineastas húngaros Zoltan e Alexander Korda e à marca Kodak - espelha a história do seu país. Variada, combativa, colorida, sofrida. Estudou para comerciante e fez um bacharelato numa escola privada de Havana, tirou as primeiras fotografias em 35 mm à primeira namorada, trabalhou como vendedor itinerante de produtos farmacêuticos. Um dia, sonhou e fundou um estúdio de fotografia publicitária e de moda, com Luis Pierce Byers. Depois... depois, começa a Revolução, no final da década de cinquenta. Korda torna-se a sombra de Fidel - até 1968, tendo acompanhado o líder aos EUA e à União Soviética. Em Novembro de 1959, fotografa os levantamentos populares na Cidade do Panamá e recebe o prémio Palma de Plata para melhor fotojornalista do ano.
Mas, durante os dez anos seguintes ao desaparecimento, em 1968, do seu arquivo, engolido nas entranhas revolucionárias, Alberto faz fotografia submarina para a Academia de Ciências de Cuba. Também esses negativos haveriam de desaparecer. Na década de 80, Korda começa a expor e a viajar fora da ilha de Fidel. Morrerá, aliás, em Paris, a 25 de Maio de 2001.
Um ano antes, em 2000, um tribunal londrino reconheceu-lhe, pela primeira vez, os seus direitos mundiais como autor da mais célebre fotografia de Che: o icónico retrato, algures entre a imagética de um Cristo de boina e os perfis gráficos dos líderes comunistas - certamente uma das imagens mais reproduzidas, adaptadas, citadas, reinterpretadas, usadas e abusadas da história da imagem (em 2005, a exposição Revolution and Commerce: The legacy of Korda's portrait of Che Guevara mostrava esse património popular, que vai de T-shirts a peluches, de maços de tabaco a capas de CD). Foi uma fotografia de acaso, tirada no dia 5 de Março, durante os funerais públicos das vítimas da sabotagem ao barco La Coubre. Fidel discursava no palco. De repente, Che surgiu. Korda disparou a sua Leica duas vezes. Guevara virou-se e desapareceu. Sete anos depois, alguém visitou Korda, no seu estúdio, a pedir uma foto do revolucionário. Ele apontou displicentemente para esse retrato de Che, pendurado na parede, a ganhar manchas de tabaco. O visitante, o editor Giangiacomo Feltrinelli, aceitou. Quando o revolucionário argentino morreu, Feltrinelli vendeu milhares de posters com a efígie de Che. Korda não ganhou um tostão por tudo quanto aconteceu à sua fotografia - Cuba não assinara a convenção de Berna, protectora dos direitos de autor, porque Castro desprezava a propriedade intelectual. Mas Korda era muito mais do que o fotógrafo que captara o instante de um outro homem, como agora se verá em Lisboa."

in Visão, 26-11-2009

"Filha de Korda admite vir a expôr mais fotos inéditas do pai.
Fotografias de Alberto Korda desconhecidas do grande público poderão ser motivo de novas exposições que a filha e herdeira do artista, Diana Diaz, admite vir a organizar, revelou a própria à agência Lusa.
Entre essas imagens conta-se um conjunto de fotografias "muito belas" e nunca expostas, captadas pelo fotógrafo cubano em 1998 para uma campanha publicitária de uma conhecida marca de cigarrilhas, que mostram um "jovem casal amante e amoroso" a percorrer as ruas de Havana, revelou Diana Diaz que se encontra em Lisboa a propósito da exposição "Korda Conhecido Desconhecido", patente na Cordoaria Nacional, em Belém.
Moda, publicidade, foto-reportagem e fotografia subaquática foram outras áreas privilegiadas do trabalho de Korda, nascido em Havana em Janeiro de 1928 e falecido em Paris em Maio de 2001."

in Visão, 02-12-2009




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