sábado, 25 de junho de 2011

Le Baiser de l'Hotel de Ville

por Robert Doisneau, Paris (1950)



A impressão original da famosa fotografia que mostra um casal beijando-se na frente da câmara de Paris em 1950, foi leiloada naquela cidade por 155 mil euros, mais de dez vezes o valor esperado.

A leiloeira Dassault esperava que a fotografia a preto e branco de Robert Doisneau fosse arrematada por cerca de 20 mil euros.
Um coleccionador suíço, não identificado, foi o comprador segundo os leiloeiros de Paris, Artcurial-Briest-Poulain-Le Fur citados pela agência de notícias Associated Press.
Françoise Bornet, a mulher que aparece na fotografia a beijar o então namorado, decidiu leiloar o original para financiar uma companhia produtora de filmes que pretende abrir com o marido.

Os românticos gostam de acreditar que os amantes foram captados pela câmara de Doisneau num momento de paixão mas, na verdade, a fotografia foi encenada.
Bornet e o namorado, Jacques Carteaud, concordaram em posar para o fotógrafo, que baptizou a imagem de " Le Baiser de l'Hotel de Ville”.
O fotógrafo francês estava a trabalhar numa série de fotografias sobre amantes em Paris para a revista Life quando viu o casal de namorados perto da escola onde os dois estudavam teatro.
Numa entrevista de 1992, Doisneau revelou: "Jamais teria ousado fotografar pessoas assim... amantes a beijarem-se em plena rua. Esses casais raramente são autênticos."

A imagem permaneceu nos arquivos da agência fotográfica em que Doisneau trabalhou mais de 30 anos, até ter sido comprada por uma empresa de posters.
A fotografia tornou-se um ícone em todo o mundo. O sucesso da foto como poster fez com que vários casais alegassem ter sido os verdadeiros protagonistas. Em 1992, um casal chegou a reivindicar, na televisão, um pouco da fama de Doisneau.
Depois de mais de 40 anos na obscuridade, Françoise Bornet reapareceu e encontrou-se com Doisneau. Ela mostrou-lhe a impressão original - que traz a assinatura autêntica do fotógrafo e selo - que ele lhe enviara apenas alguns dias após ter tirado a fotografia.
Françoise Bornet e o então namorado, Jacques Carteaud que se tornou produtor de vinhos, nunca se casaram."
in BBC, 25-04-2004

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Nguyễn Văn Lém

por Eddie Adams, Saigão (1968)


"Revelada história por trás da fotografia mais emblemática do Vietname.

A imagem mais divulgada do Vietname é a execução de um prisioneiro vietcongue pelo general vietnamita Nguyen Ngoc Lan, da autoria do fotojornalista Eddie Adams, revelou hoje a agência Ansa.
A foto, tirada no 1º de Fevereiro de 1968 por Eddie Adams a serviço de uma grande agência de notícias, permanece até hoje como uma das imagens mais emblemáticas dos horrores provocados pela Guerra do Vietname (1959-1975).
O fotógrafo captou a imagem após o massacre de 34 pessoas por vietcongues, naquela que ficou conhecida como a 'Ofensiva Tet'.
As vítimas eram agentes da polícia nacional e familiares e o general, que conseguiu deter um dos culpados pela matança, levou o prisioneiro diante de um grupo de jornalistas, que esperavam uma conferência de imprensa sobre a captura.
Porém, ao invés de um curto discurso, acabaram por assistir à execução sumária do vietcongue.
A fotografia venceu o Prémio Pulitzer em 1969, tornando-se o símbolo mais famoso da brutalidade da guerra. Ajudou ainda diversos movimentos anti-guerra e, diz-se, terá ajudado o então presidente Lyndon Johnson a não tentar outro mandato.

Um aspecto pouco conhecido do caso é que o fotógrafo Adams sempre demonstrou um profundo sentimento de culpa pelo mal causado pela imagem do general Loan.
«O general matou um vietcongue com a pistola. Eu matei o general com a minha câmara fotográfica. As fotos são a arma mais forte do mundo, mas podem mentir», observou o fotógrafo posteriormente.
Adams, após a difusão mundial da foto, recebeu da sua agência a função de continuar acompanhando o general. Uma experiência que levou o fotógrafo a mudar sua opinião sobre Loan.
«Ele combatia a nossa guerra, pelo seu povo. Tinha ajudado a construir um hospital em Saigon, tinha apenas assistido ao massacre de vários dos seus colegas», observou diversas vezes Adams, que pediu, durante os anos sucessivos, diversas vezes perdão ao general e à família pelos danos causados.
Após a queda de Saigon, o general imigrou para os Estados Unidos onde tentou abrir um restaurante no estado da Virginia. Mas, quando o seu nome foi ligado à fotografia, grupos de manifestantes começaram a protestar em frente ao restaurante, obrigando Loan a fechar o local.
Quando o general morreu em 1998, de cancro, o fotógrafo Adams enviou flores aos familiares e um bilhete - «Peço desculpas. Os meus olhos estão cheios de lágrimas»."

in Jornal Sol, 29-01-2008

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Guerrillero Heroico

por Albero Korda, Havana (1960)



"Uma grande exposição traz a Lisboa imagens de uma revolução e de um povo - tudo o que Alberto Korda viveu na sombra "daquela" fotografia de Che Guevara.
E, de repente, há esta imagem, com uma reserva distanciada da estridência de outras fotografias suas, planos de banhos de multidão, manifestações, fardas e grandiloquências. Che Guevara está sentado numa sala formal - o seu gabinete de presidente do Banco Nacional de Cuba - vestido com o cáqui da tropa, a boina a direito, as botas de atacadores apertados. Levanta uma mão como se puxasse o ar para si. No sofá em frente, escutam Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, cercados por cadeiras vazias - como se os restantes personagens da cena se tivessem levantado de propósito para dar espaço e significado ao encontro de três "gigantes".
Mais à frente, outras duas imagens que fogem ao estereótipo triunfal ou à criação de iconografia: numa, o jovem Fidel Castro folheia um álbum, de joelhos juntos e postura tímida, rodeado por quatro raparigas - as rainhas da rádio de Nova Iorque, que o líder cubano conhece na sua primeira viagem aos Estados Unidos da América, em 1959. Na outra fotografia, Fidel, de mãos atrás das costas, segura no chapéu e olha para cima, pequeno, face ao gigantismo do Memorial a Abraham Lincoln. E, depois, há ainda imagens de guerrilheiras a arranjar o cabelo, crianças sorridentes, jogos de xadrez nas pausas revolucionárias, Fidel e Che a jogarem golfe, desfiles na Plaza de la Revolución, trabalhadores na Sierra Maestra, fotografias de estúdio de uma bela rapariga a destilar o glamour estilizado da época - Norka, a modelo de eleição. As coisas que Alberto 'Korda' Gutiérrez (1928- 2001), fotojornalista e não só, viu. As coisas que o deixaram ver, antes de, em 1968, Fidel Castro ter anunciado a "Ofensiva Revolucionária" e decretado o confiscamento de todos os negócios privados - incluindo o Studio Korda, tomado de assalto por agentes do Ministério do Interior que fazem desaparecer os arquivos, apenas sendo conservados os negativos relacionados com a Revolução e os seus líderes.

O mar como fuga

Quarenta anos depois, a redescoberta. Ao todo, são 200 as imagens patentes em Korda - Conhecido Desconhecido que, de 2 de Dezembro até 31 de Janeiro de 2010, ocupará a Galeria Torreão Nascente, na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Organizada pela comissária Cristina Vives, com a ajuda do assistente de Alberto Korda (José A. Figueroa) e da sua filha (Diana Diaz), a exposição lança um novo olhar sobre a obra do fotógrafo, filho de um empregado ferroviário e de uma dona de casa, cujas rugas da maturidade lembravam um Hemingway. Cristina Vives conseguiu ter acesso, em 2008, aos 50 mil negativos guardados no Arquivo Histórico do Conselho de Estado de Cuba. Pôde ainda consultar os arquivos pessoais de Alberto Korda e o epistolário familiar, além de realizar entrevistas e pesquisar o homem por detrás das lentes. E diz que, neste processo de redescoberta, pôde dar resposta a questões que contextualizam a sua imensa produção fotográfica.
Por exemplo, saber como era o seu estúdio de Havana, onde ele realizou, entre 1954 e 1968, fotografias de moda e publicidade. Ou fazer o retrato do líder da Revolução que Korda captou na intimidade e cujas imagens nunca imprimiu nem expôs. Responder ainda a coisas como: "Onde estava o 'povo' que apoiou a Revolução e que muito poucas vezes incluiu na sua selecção de imagens para livros ou exposições? Houve outras modelos, para além de Norka? Onde as encontrava, quando a moda e a publicidade conheceram o fim na Cuba socialista, em meados dos anos sessenta? Foi o mar um tema recorrente na sua obra, ou este representava o refúgio encontrado, após o confisco do seu estúdio, em 1968 e a cessação das suas funções como fotógrafo acompanhante do líder da Revolução?"

Lições da História

Korda - nome que Alberto Díaz Gutiérrez assumiu em homenagem aos cineastas húngaros Zoltan e Alexander Korda e à marca Kodak - espelha a história do seu país. Variada, combativa, colorida, sofrida. Estudou para comerciante e fez um bacharelato numa escola privada de Havana, tirou as primeiras fotografias em 35 mm à primeira namorada, trabalhou como vendedor itinerante de produtos farmacêuticos. Um dia, sonhou e fundou um estúdio de fotografia publicitária e de moda, com Luis Pierce Byers. Depois... depois, começa a Revolução, no final da década de cinquenta. Korda torna-se a sombra de Fidel - até 1968, tendo acompanhado o líder aos EUA e à União Soviética. Em Novembro de 1959, fotografa os levantamentos populares na Cidade do Panamá e recebe o prémio Palma de Plata para melhor fotojornalista do ano.
Mas, durante os dez anos seguintes ao desaparecimento, em 1968, do seu arquivo, engolido nas entranhas revolucionárias, Alberto faz fotografia submarina para a Academia de Ciências de Cuba. Também esses negativos haveriam de desaparecer. Na década de 80, Korda começa a expor e a viajar fora da ilha de Fidel. Morrerá, aliás, em Paris, a 25 de Maio de 2001.
Um ano antes, em 2000, um tribunal londrino reconheceu-lhe, pela primeira vez, os seus direitos mundiais como autor da mais célebre fotografia de Che: o icónico retrato, algures entre a imagética de um Cristo de boina e os perfis gráficos dos líderes comunistas - certamente uma das imagens mais reproduzidas, adaptadas, citadas, reinterpretadas, usadas e abusadas da história da imagem (em 2005, a exposição Revolution and Commerce: The legacy of Korda's portrait of Che Guevara mostrava esse património popular, que vai de T-shirts a peluches, de maços de tabaco a capas de CD). Foi uma fotografia de acaso, tirada no dia 5 de Março, durante os funerais públicos das vítimas da sabotagem ao barco La Coubre. Fidel discursava no palco. De repente, Che surgiu. Korda disparou a sua Leica duas vezes. Guevara virou-se e desapareceu. Sete anos depois, alguém visitou Korda, no seu estúdio, a pedir uma foto do revolucionário. Ele apontou displicentemente para esse retrato de Che, pendurado na parede, a ganhar manchas de tabaco. O visitante, o editor Giangiacomo Feltrinelli, aceitou. Quando o revolucionário argentino morreu, Feltrinelli vendeu milhares de posters com a efígie de Che. Korda não ganhou um tostão por tudo quanto aconteceu à sua fotografia - Cuba não assinara a convenção de Berna, protectora dos direitos de autor, porque Castro desprezava a propriedade intelectual. Mas Korda era muito mais do que o fotógrafo que captara o instante de um outro homem, como agora se verá em Lisboa."

in Visão, 26-11-2009

"Filha de Korda admite vir a expôr mais fotos inéditas do pai.
Fotografias de Alberto Korda desconhecidas do grande público poderão ser motivo de novas exposições que a filha e herdeira do artista, Diana Diaz, admite vir a organizar, revelou a própria à agência Lusa.
Entre essas imagens conta-se um conjunto de fotografias "muito belas" e nunca expostas, captadas pelo fotógrafo cubano em 1998 para uma campanha publicitária de uma conhecida marca de cigarrilhas, que mostram um "jovem casal amante e amoroso" a percorrer as ruas de Havana, revelou Diana Diaz que se encontra em Lisboa a propósito da exposição "Korda Conhecido Desconhecido", patente na Cordoaria Nacional, em Belém.
Moda, publicidade, foto-reportagem e fotografia subaquática foram outras áreas privilegiadas do trabalho de Korda, nascido em Havana em Janeiro de 1928 e falecido em Paris em Maio de 2001."

in Visão, 02-12-2009




domingo, 19 de junho de 2011

Lunch Atop a Skyscraper

por Charles C. Ebbets, Nova Iorque (1932)


“Um cineasta irlandês acredita que descobriu a identidade de dois dos 11 homens misteriosos retratados no "Almoço no Alto de um Arranha-Céu", a fotografia ícone da era da Grande Depressão americana, de trabalhadores da construção do Rockefeller Center a almoçar 69 andares acima de Manhattan.
Os primos em primeiro grau Pat Glynn, de 75, e Patrick O'Shaughnessy, de 77 anos, afirmam que são os seus pais - irmãos e imigrantes irlandeses de County Galway – os trabalhadores sentados nas extremidades da viga.
Glynn acredita que o seu pai, Sonny, é o homem na extremidade direita da viga que enfrenta a câmara fotográfica. O'Shaughnessy disse que o seu pai, Martin, é o homem de cabelos escuros, na extremidade esquerda, inclinando-se para acender um cigarro.
Em 29 de Setembro de 1932, ninguém registou os nomes dos trabalhadores quando o fotógrafo Charles C. Ebbets tirou a fotografia que foi publicada, no domingo seguinte, no New York Herald Tribune.
As verdadeiras identidades dos 11 homens são, em grande parte, desconhecidas embora, ao longo dos anos, muitas pessoas tenham reivindicado ligações às suas famílias.
Um artigo no “The Post” de 2002 acerca da pesquisa efectuada pelos Museus Smithsonian sobre os homens da fotografia, originou uma avalanche de chamadas telefónicas. Como resultado, os 11 homens foram identificados com mais de 39 nomes.
Na semana passada, Glynn e O'Shaughnessy observaram Manhattan, pela primeira vez, desde a plataforma de observação do edifício, no 70.º andar – a mesma vista de cortar a respiração que os seus pais experimentaram há 80 anos.
Sonny teria cerca de 28 anos e Martin cerca de 31, quando a fotografia foi tirada, de acordo com os seus filhos.
Os dois homens deixaram o campo em Galway para procurar trabalho nos Estados Unidos, disse O'Shaughnessy. Eventualmente, o seu pai voltou para a Irlanda enquanto Glynn ficou nos Estados Unidos para ganhar a vida na construção.
Glynn viu pela primeira vez a fotografia de Ebbets há alguns anos numa loja perto de Boston, onde vivem os primos: ’Ela chamou-me a atenção e, mal a vi exclamei: 'É o meu pai!', disse o carteiro aposentado.
O cineasta irlandês Sean O'Cualain, que dirige a Sónta Productions em Galway, irá realizar um documentário sobre Glynn e O'Shaughnessy que irá para o ar na televisão irlandesa, em 2012.”

in New York Post, 12-06-2011

sábado, 18 de junho de 2011

Rue Mouffetard

por Henri Cartier-Bresson, Paris (1954)


"Francês considerado o pai do fotojornalismo moderno não usava nem o flash nem a cor.

Henri Cartier-Bresson faria hoje 100 anos. Francês feito prisioneiro pelos nazis, é por muitos considerado o pai do fotojornalismo moderno. Elegeu o preto e branco, elegeu a rua. A morte encontrou-o em paz em 2004.
Ao nome de Henri Cartier--Bresson deve associar-se o de Martin Munkacsi. A imagem de três rapazes nus a correr junto ao lago Tanganica, que o fotojornalista húngaro publicou numa revista em 1931, foi o ponto decisivo: "De repente, percebi que uma fotografia podia fixar a eternidade num instante". Bresson traçava assim o seu rumo e comprava a primeira Leica. A extensão do seu olho, como dizia. E pouco tempo passou desde esse momento - em que deixou a pintura em definitivo - e a primeira exposição, em Nova Iorque, no ano de 1933.
A pequena câmara abriu-lhe todo um mundo de novas oportunidades, permitindo-lhe ser anónimo em ruas apinhadas de gente e captar a vida. Berlim, Bruxelas, Varsóvia, Praga, Budapeste e Madrid foram as escolhas iniciais. Só muito mais tarde viria a dedicar-se à França natal.
O primeiro trabalho de Cartier-Bresson como fotojornalista, publicado na revista francesa "Regards", foi a cerimónia de coroação de Jorge VI de Inglaterra, em 1937: fixou-se na multidão, não fotografou o monarca. Nessa altura, já era fotógrafo do "Ce Soir", mas não chegou a filiar-se no Partido Comunista Francês.
Henri foi capturado pelos nazis durante a II Guerra Mundial e, à terceira tentativa, conseguiu pôr termo a 35 meses de cativeiro e de trabalhos forçados. Além de ter dado a mão a compatriotas também evadidos, fez a cobertura secreta da ocupação e da libertação de Paris. A pedido dos americanos que realizou o documentário "Le retour", em 1945.
Dois anos depois, fundava a Magnum Photos, com Robert Capa, David "Chim" Seymour, George Rodger e William Vandivert. A missão da agência era sentir o pulso da época, colocando a fotografia ao serviço da humanidade. Os sócios repartiram entre si a cobertura das diversas partes do Mundo, e Cartier-Bresson foi inicialmente destacado para a Índia e para a China.
O reconhecimento internacional pelo seu trabalho aconteceu com a cobertura do funeral de Mahatma Gandhi, em 1948. No ano seguinte, testemunhou a saída do Partido Nacionalista chinês - o Kuomintang - do poder e os primeiros meses da liderança de Mao Tsé-Tung.
Bresson foi dos primeiros profissionais a usar o formato 35 mm e contribuiu para desenvolver a chamada fotografia de rua. Só fotografava a preto e branco e nunca usava flash: seria o mesmo que "ir a um concerto com uma pistola na mão". Era tímido e detestava publicidade. Um dia, disse: "No que quer que se faça, tem de haver uma relação entre o olho e o coração". O dele parou a 3 de Agosto de 2004, a escassos dias de completar 96 anos."

in Jornal Notícias, 22-08-2008


"A leiloeira Soler y Llach, de Barcelona, decidiu suspender o leilão de um terço dos lotes que pretendia pôr à venda com fotografias de Henri Cartier-Bresson. A decisão surgiu depois da fundação com nome do fotógrafo, um dos principais fotojornalistas do século XX, ter defendido que 66 das imagens em leilão não poderiam ser vendidas por se tratar de “fotografias de imprensa e com assinaturas falsas”.
A Soler y Llach tinha anunciado um leilão, a decorrer amanhã, com peças de Cartier-Bresson e de Agustí Centelles, outro dos grandes nomes do fotojornalismo. No catálogo estavam 174 lotes com objectos de Cartier-Bresson, mas a leiloeira decidiu entretanto suspender a venda de perto de 60, como explicou o director do departamento de fotografia da Soler y Llach, citado pela edição online do "El Mundo".
A decisão foi a resposta às "pressões" da Fundação Cartier-Bresson sobre a leiloeira, que, segundo Juan Naranjo, já se verificaram noutras ocasiões, nomeadamente a propósito de um outro leilão em Nova Iorque. No entanto, esta é a primeira vez que um leilão é suspenso após uma intervenção da fundação.
"Pensámos sobretudo nos nossos clientes e na imagem da leiloeira e no seu departamento de fotografia, criado recentemente", disse o responsável, ao justificar a decisão de suspender o leilão. Juan Naranjo sublinha que se trata de uma decisão temporária, em vigor até que fiquem esclarecidas as dúvidas legais. "Reservamo-nos o direito de actual legalmente contra a fundação", acrescentou.
Naranjo considerou "estranhos" os argumentos utilizados pela Fundação Cartier-Bresson, relembrando que "há dois anos, quando se expuseram as mesmas fotografias [agora contestadas] em Valls, a fundação tinha conhecimento e a imprensa elogiou a exposição".
Nos lotes suspensos estão algumas das imagens mais emblemáticas da carreira de Cartier-Bresson, como "Derrière la Gare Saint-Lazare" (1932) ou "Rue Mouffetard" (1955)."

in Jornal Público, 26-05-2010

domingo, 5 de junho de 2011

Girl and Vulture

por Kevin Carter, Sudão (1993)


"O diário espanhol El Mundo foi procurar a criança sudanesa fotografada em 1993 pelo fotojornalista Kevin Carter, que lhe valeu o Pulitzer em 1994. O abutre que esperava pela carcaça do bebé subnutrido afinal ficou sem refeição. Era um menino e só acabou por morrer mais tarde, há quatro anos, de “febres”, contou o pai.
Deve o fotojornalista apenas mostrar a realidade crua através da sua lente ou interferir nela quando a sua consciência assim o exige? Kevin Carter achou que não devia interferir, em 1993, quando fotografou, a imagem de um bebé do Sudão, caído no chão, enquanto no mesmo plano um abutre esperava pacientemente pela refeição. Não salvou a criança e o mundo, que deu o bebé como morto, criticou-o e chamou-lhe a ele próprio abutre. Carter acabou por ganhar o prémio Pulitzer com esta imagem, depois publicada pelo New York Times, mas a imagem perseguiu-o.
Afinal, conta este fim-de-semana o El Mundo, o bebé era um menino, chamava-se Kong Nyong, e sobreviveu ao abutre. Segundo o jornal espanhol a enfermeira Florence Mourin, que coordenava os trabalhos do programa das Nações Unidas para o combate à fome no Sudão em Ayod, o local onde tudo aconteceu, que o menino estava a ser acompanhado, como prova a pulseira branca na mão direita, que se podia ver na fotografia premiada. Uns tinham a letra T nas pulseiras, para casos de subnutrição grave. Outros tinham a letra S, quando precisavam de suplementos alimentares. Kong, que tinha marcada na pulseira a inscrição T3, sofria de subnutrição grave, foi o terceiro a chegar ao centro das Nações Unidas. E sobreviveu, conta Florence ao El Mundo, que foi até Ayod para reconstituir, 18 anos depois, a história daquela imagem.
Kong viveu até 2007, depois morreu de “febres”, contou o pai do menino.
Carter fundou com Ken Oosterbroek, Greg Marinovich e João Silva - o fotojornalista lusodescendente que perdeu as pernas num acidente no Afeganistão em Outubro passado - o Bang Bang Club. O movimento denunciou, pela fotografia, os crimes do apartheid na África do Sul.
Em Abril de 1994, pouco depois do anúncio do Pulitzer, Osterbroek morreu, baleado, quando fotografava um tiroteio em Tozoka, África do Sul.
Carter, que era descrito como alguém que profissionalmente procurava sempre o limite da condição humana, era também arrastado facilmente para a depressão pela força do seu próprio trabalho, contavam os amigos. Dizia que se não fotografasse seria piloto de Fórmula 1, por gostar de viver no limite. Entregou-se às drogas e acabou por se suicidar, tinha 33 anos.
A fome no Sudão matou 600 mil pessoas em 1993. A guerra civil e a seca provocaram no país centenas de refugiados naquela década. O país continua a ser um dos focos de crise humanitária mais graves do planeta."
in Jornal Público, 03-03-2011
ver vídeo

Fire on Marlborough Street

por Stanley J. Forman, Boston (1975)


"O fotojornalista Stanley Forman descreveu como fez em 1975, a imagem de Diana Bryant, de 19 anos e sua afilhada de dois anos, Tiare Jones, no momento em que elas caíram de uma escada de incêndio enquanto um apartamento pegava fogo em Boston: "Foi no dia 22 de Julho de 1975. Estava quase na hora de eu deixar o escritório do Boston Herald depois do expediente. Recebemos uma chamada por causa de um incêndio numa das áreas mais antigas da cidade com prédios de estilo Vitoriano. Fui até ao local e corri até a parte detrás do prédio, porque os bombeiros estavam a gritar que precisavam de um carro com escada para resgatar as pessoas que estavam presas na escada de incêndio do edifício. Quando olhei para cima, vi uma mulher e uma criança na escada de emergência que estavam debruçadas para tentar escapar do calor do fogo atrás delas. Enquanto isso, um bombeiro escalou a parte da frente do prédio até ao telhado e viu as duas na escada de incêndio. Ele inclinou-se na direcção da escada para as resgar mas esta cedeu. Eu estava a fotografar quando elas caíram. Depois, virei de costas. Eu percebi o que estava a acontecer e não queria vê-las no chão. Ainda me lembro do momento em que virei o corpo. Eu tremia. Segundo os bombeiros, a mulher amorteceu a queda da criança. Diana morreu na noite daquele mesmo dia".
A fotografia foi publicada pela primeira vez no Boston Herald e depois em jornais de todo o mundo provocando reacções hostis por parte dos leitores.. Os média foram acusados de invadir a privacidade de Diana Bryant, que morreu como resultado da queda, e de ceder ao sensacionalismo. Com dois anos de idade, Tiare sobreviveu.
Mas, a imagem também as entidades oficiais de Boston a rever as suas leis em matéria de segurança em caso de incêndio. Grupos de segurança contra incêndios em todo o país usaram a fotografia para promover esforços similares noutras cidades.
Com esta fotografia Stanley J. Forman ganhou o Prêmio Pulitzer de 1975."

in BBC News, 30-09-2005